Setor já responde por 30% do etanol produzido no Brasil, segundo Amauri Pekelman
O etanol de milho, que ganhou espaço rapidamente na matriz de biocombustíveis brasileira nos últimos anos, pode representar entre 40% e 45% da produção nacional de etanol na próxima década. A projeção é de Amauri Pekelman, presidente-executivo da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).
Em entrevista ao Canal Rural, Pekelman afirmou que o segmento avançou, em média, 37% ao ano nos últimos cinco anos. Atualmente, segundo ele, aproximadamente 30% do etanol produzido no Brasil tem o milho como matéria-prima, enquanto os 70% restantes vêm principalmente da cana-de-açúcar.
“Em nove anos conseguimos construir um market share de 30% no mercado brasileiro”, afirmou. Para os próximos dez anos, a expectativa é de continuidade da expansão. “Ele pode chegar a 40%, 45%. Então, a gente vê um crescimento bem grande para os próximos anos.”
Segundo Pekelman, o custo do milho tem peso importante na viabilidade das usinas. A matéria-prima representa, de acordo com ele, cerca de 80% dos custos da produção de etanol de milho. No caso da cana-de-açúcar, essa participação fica em torno de 60%.
Uma das alternativas para ampliar a eficiência são as chamadas usinas flex, capazes de utilizar tanto milho quanto cana-de-açúcar como matéria-prima, permitindo adequar a produção às condições de mercado.

Atualmente, a produção brasileira de etanol de milho está próxima de 10 bilhões de litros, segundo Pekelman. A projeção apresentada pelo presidente da Unem é acrescentar outros 10 bilhões de litros ao volume produzido dentro de uma década.
“Hoje a gente produz 10 bilhões de litros. A gente está prevendo, daqui a mais dez anos, produzir mais 10 bilhões de litros”, disse.
O crescimento cria uma nova fonte de demanda para o milho brasileiro e, na avaliação do executivo, aumenta a previsibilidade para os agricultores. Pekelman afirmou que empresas do segmento chegam a firmar contratos de compra por períodos de dois, três ou quatro anos.
Segundo ele, a estratégia busca dar maior segurança ao produtor diante de fatores como juros elevados, oscilações de preços e riscos climáticos.
A expansão das biorrefinarias também mudou a dinâmica do mercado de milho, especialmente no Centro-Oeste. A proximidade das indústrias das principais regiões produtoras reduz custos logísticos e cria uma demanda local pelo cereal.
Pekelman avalia que o etanol ajudou a transformar um produto que anteriormente tinha forte dependência das exportações.
“Você não tinha para onde colocar milho, tinha que exportar, o custo era muito alto para exportar, os valores baixavam muito e o produtor não tinha garantia de venda”, afirmou.
Na avaliação do presidente da Unem, o avanço da demanda doméstica pode fazer a produção brasileira de milho crescer de forma significativa nos próximos anos. Ele projeta, inclusive, que dentro de aproximadamente uma década o país poderá produzir mais milho do que soja.
Além do combustível, o processamento do milho nas biorrefinarias gera coprodutos utilizados por outras cadeias do agronegócio.
De acordo com Pekelman, aproximadamente 70% do processamento é direcionado à fabricação de etanol, enquanto entre 25% e 30% resulta em DDG, ingrediente utilizado principalmente na alimentação animal. O processo também gera óleo de milho.
“O DDG é matéria-prima para a proteína animal, ou seja, para alimentar o gado, as aves e os peixes”, explicou.
Segundo o executivo, o produto apresenta concentração de proteína superior à do milho in natura e tem sido utilizado especialmente em sistemas de confinamento de bovinos.
Essa integração é um dos fatores que ajudam a explicar a concentração das novas biorrefinarias no Centro-Oeste, onde estão grandes volumes de produção de milho e importantes polos da pecuária brasileira.
Apesar das perspectivas de expansão, Pekelman afirmou que 2026 tem sido um ano difícil para a indústria.
Segundo ele, os custos agrícolas aumentaram, pressionados por fatores como fertilizantes e mão de obra. Ao mesmo tempo, o preço doméstico da gasolina limita a capacidade de repasse dos custos pelo setor de etanol.
“Está sendo um ano muito difícil para o setor pelo fato de você ter achatamento de preços e custos mais altos”, afirmou.
O executivo também citou os juros como um dos principais obstáculos aos investimentos no campo. Na avaliação dele, taxas elevadas dificultam a tomada de crédito e aumentam o risco para produtores diante de possíveis perdas causadas pelo clima.
Outro ponto abordado durante a entrevista foi o aumento da participação do etanol anidro na gasolina.
Pekelman destacou que mudanças nos percentuais de mistura precisam ser acompanhadas por estudos técnicos para avaliar os impactos nos veículos. Segundo ele, a legislação permite chegar a uma participação de até 35%, condicionada às avaliações técnicas necessárias.
Para o setor, porém, a previsibilidade das regras também é importante para sustentar novos investimentos.
“Quem faz o investimento está pensando em como crescer a sua produção e os seus investimentos. A partir do momento que você não tem uma segurança de que pode retornar para os 27% ou até para os 25%, aí existe uma preocupação jurídica”, disse.
Além do transporte rodoviário, o etanol pode ampliar sua participação na descarbonização dos setores aéreo e marítimo.
No caso da aviação, Pekelman destacou a possibilidade de utilização do etanol como matéria-prima para a produção de combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF.
“Vamos sair um pouquinho do terrestre, que é colocar lá no seu posto, e vamos abastecer agora navios e aviões com base no etanol”, afirmou.
Ele ressaltou que o SAF não significa abastecer diretamente os aviões com etanol. O biocombustível funciona como matéria-prima em processos tecnológicos para a fabricação do combustível utilizado pelas aeronaves.
Na avaliação do presidente da Unem, a combinação entre expansão dos biocombustíveis, crescimento das biorrefinarias e geração de coprodutos deve ampliar a demanda pelo milho brasileiro ao longo da próxima década.
Canal Rural