Quarta-Feira, 13 de Junho, 2026 Acesse nosso Instagram
13-05-2026

Carne e leite de jumento: o que a experiência argentina pode ensinar ao Brasil

A venda de carne de burro deixou de ser apenas uma curiosidade gastronômica na Argentina e começou a ganhar contornos de uma nova atividade pecuária regional. O que inicialmente surgiu como uma alternativa produtiva isolada na Patagônia rapidamente chamou atenção do mercado após restaurantes e açougues registrarem alta procura pela proteína, que teve os estoques esgotados poucas horas após o lançamento comercial.

O caso ocorreu em Trelew, cidade da província de Chubut, no sul argentino, onde um evento gastronômico dedicado à carne de jumento atraiu consumidores interessados em experimentar a novidade. O resultado surpreendeu produtores e comerciantes locais.

Por trás da iniciativa está o pecuarista Julio Cittadini, produtor rural com mais de seis décadas de experiência no campo. Segundo ele, a proposta não nasceu da crise econômica argentina, mas da necessidade de encontrar uma atividade viável para a realidade produtiva da Patagônia. “Não tem relação com a situação econômica do país. Foi uma alternativa encontrada para continuar produzindo carne em uma região onde a criação de ovinos se tornou cada vez mais difícil”, afirma.

Durante anos, Cittadini trabalhou com criação de ovelhas. Porém, os ataques constantes de predadores, especialmente pumas, inviabilizaram a continuidade da atividade em parte da região. Ao mesmo tempo, as características geográficas e climáticas da Patagônia limitam a expansão da bovinocultura tradicional.

Diante desse cenário, o produtor decidiu apostar nos asininos, animais historicamente presentes na região e tradicionalmente utilizados para transporte e trabalho rural. “O burro se adaptou muito bem. É um animal resistente, fértil e que suporta as condições rigorosas da Patagônia sem grandes dificuldades”, explica.

O projeto começou a ser estruturado há cerca de dois anos e recebeu autorização sanitária das autoridades locais e nacionais para abate e comercialização da carne. Além da rusticidade, outro fator contribuiu para a escolha dos asininos: os animais praticamente não sofrem ataques de predadores naturais da região.

O preço inicial da carne também ajudou a impulsionar a procura. O quilo foi lançado por cerca de 7.500 pesos argentinos, aproximadamente R$ 27 na cotação atual, valor inferior ao da carne bovina local.

Segundo os envolvidos no projeto, a estratégia teve objetivo claro de facilitar a entrada do produto no mercado consumidor. O sabor semelhante ao da carne bovina contribuiu para a rápida aceitação.

Mesmo sendo um dos maiores consumidores de carne bovina do mundo, com média de 49,4 quilos por habitante ao ano, os argentinos tradicionalmente mantêm hábito de consumir outras proteínas de origem animal, como guanaco e lhama, especialmente em determinadas regiões do país.

Novas proteínas entram no radar da pecuária argentina

O movimento envolvendo a carne de burro ocorre paralelamente a outras iniciativas argentinas voltadas ao aproveitamento econômico de espécies alternativas.

Na província de Corrientes, por exemplo, está em andamento um projeto para estruturar uma cadeia de processamento de carne de espécies exóticas invasoras, como javali e veado-axis. A proposta busca reduzir impactos ambientais causados pela reprodução descontrolada desses animais e, ao mesmo tempo, gerar renda em áreas rurais.

O projeto envolve participação de municípios, setor privado e estruturação de sistemas sanitários específicos para o processamento das carnes.

Apesar da rápida aceitação da carne de jumento entre consumidores, a atividade também começou a enfrentar resistência de organizações de defesa animal. ONGs ingressaram na Justiça argentina tentando barrar os abates sob alegação de que o Código Alimentar Nacional não permitiria o consumo da proteína.

O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa), porém, informou que não existe proibição para comercialização da carne de burro desde que sejam cumpridas as exigências sanitárias. “A legislação cita somente que qualquer carne, para ser consumida pela população argentina, precisa ser produzida dentro dos requisitos sanitários”, afirma Cittadini.

Leite de jumenta também desperta interesse no país

O interesse pelos asininos não se limita à produção de carne. O leite de jumenta também começa a ganhar espaço no mercado argentino e será uma das novidades apresentadas na feira TodoLáctea, marcada para maio, em Córdoba.

O produto vem sendo apontado como uma alternativa de alto valor agregado dentro do setor lácteo. Entre os diferenciais destacados estão propriedades nutricionais, aplicações terapêuticas e composição semelhante à do leite materno.

Além disso, o leite de jumenta é reconhecido por características hipoalergênicas, fator que amplia potencial de uso na alimentação e na indústria.

Produção ainda é incipiente no Brasil

Embora o consumo de carne e leite de jumento exista em países da Europa, África, China e México, no Brasil a estruturação de uma cadeia produtiva ligada aos asininos ainda ocorre de forma embrionária.

Pesquisadores e criadores avaliam que existe potencial principalmente para produção leiteira em regiões tradicionais de criação de jumentos, como o Nordeste brasileiro.

O entendimento é de que a valorização econômica dos animais pode contribuir tanto para geração de renda quanto para preservação das raças, seguindo lógica semelhante à observada historicamente na bovinocultura nacional.

Hoje, o Brasil ocupa posição de liderança global na produção de carne bovina e ampliou significativamente sua participação na cadeia leiteira ao longo das últimas décadas, resultado de investimentos em genética, manejo e organização produtiva.

Fonte: O Presente Rural

Veja Mais
Safra mundial de soja deve bater recorde em 2026...
Petrobras busca aumento de produção para mitigar efeitos da gue...
UE mantém demais países do Mercosul como exportadores de carne...
Safra maior pode virar o jogo do milho...
Mercados agrícolas abrem atentos ao USDA...
Famasul Conecta e Funar promovem balcão de empregos e estágios ...
Agro de MS ganha espaço em debate entre Brasil e França...
Iguatemi registra a mínima da manhã de hoje com 1 grau; frio pe...
Shows nacionais da Expoagro 2026 devem atrair multidão em Dourad...
Exportações de carne bovina do Brasil disparam em 2026...
Mais vistos